Powered By Blogger

Participe da Mais nova onda do Skoob

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Rei de mim



    Coroaram-me rei de mim! Oh céus, que descuido do monarca ao colocar-me como herdeiro legítimo do trono. Durante seu reinado, vários cobiçaram o seu posto, colocaram-se como dignamente perfeitos para ocuparem tal cargo além de que, em juramento, afirmaram que permaneceriam completamente íntegros durante o período em que governassem.
    Lembro-me muito bem de um senhor calvo adentrando pelas portas do palácio, ele deveria ter cerca de meio século de vida, a barba ainda estava por fazer e carregava debaixo dos braços uma pasta. Dirigiu-se ao rei e entregou os documentos que carregava, neles estavam contidas algumas informações sobre os impostos arrecadados durante toda a estação em forma de papiro da mais alta qualidade e escritas com sangue. O Rei pegou seu anel mergulhou na cera líquida e em forma de assinatura carimbou o documento.
    Então, tomei a liberdade de me aproximar e pude perceber uma certa melancolia nos olhos do rei, talvez uma tristeza ou sentimento de culpa por algo. Não foi necessário que eu dissesse alguma coisa para que ele erguesse o rosto e fixasse o seu olhar nos meus, para que começasse a conversar com um estranho, que não sabia fazer outra coisa além de limpar a poeira da sola dos seus pés.
    "Criança, você não sabe o desejo que eu estou de cobrir-lhe com o meu manto e coroá-lo Rei de mim e em troca arrancar das suas mãos essa vassoura que há tanto tempo você utiliza para limpar a minha sujeira, minha podridão, meu fardo, o qual se tornou tão pesado que não posso carregá-lo sozinho. Cresci, ouvindo a voz do meu pai que sempre esperou de mim honra, justiça e paz. Ao tornar-me rei, me transformei também em juiz, tive que julgar as pessoas por seus atos, suas palavras, suas roupas, suas culturas; não sei mais em quantas guerras envolvi meu povo por meus próprios interesses, para que as minhas palavras, os meus costumes e as minhas vontades prevalecessem. Nunca toquei em uma única arma, pois para isso eu tinha meu exército composto pelos homens mais fortes e destemidos do reino, mas matei tantas famílias e aniquilei todas as possibilidades de construção de outras utilizando uma simples palavra. Adquiri toda riqueza possível que um rei pode ter, possuo mais terras anexadas ao meu reino do que eu mesmo posso imaginar, a maioria delas eu jamais visitarei, a cada estação o meu estoque é renovado e eu continuo tendo tudo do bom e do melhor para viver de uma maneira confortável, porém o meu povo ainda continua miserável. O mesmo povo que levantou esses pilares, que conquistou estas terras, que plantou o trigo para a colheita, que não dorme para assegurar que o seu filho estará vivo na manhã seguinte. A esse povo, a essas pessoas, deve ser entregue todo esse mérito que inconscientemente dão a mim. Por isso criança, a partir do poder que recebi dos meus antepassados, o corôo Rei de mim. Faça desse teu servo o que bem entender, julgue-me, prenda-me, mate-me, esse poder não me pertence mais, foi entregue totalmente a você, a quem agora chamo de Meu Senhor."
    Colocou-me então sua coroa, e seu manto, então diante de mim, vi um homem nu, despido de todas as suas vergonhas, confessando suas mais íntimas angústias a alguém que nada mais sabia fazer do que tirar a poeira dos seus pés. Como eu poderia julgar aquele homem que perdera sua honra, não conhecia a justiça, mas necessitava como toda a humanidade encontrar a paz. Por esse motivo, deixei a coroa no chão, estiquei o manto em uma cadeira e pela primeira vez fitei-lhe diretamente o olhos e disse: "Como vosso rei, ordeno que desfaça-se dessas tralhas todas, venda ou troque por alimentos, destrua esse palácio, não necessito dele, porque a minha casa é o mundo, é o povo e onde estiver minha riqueza ali estará também meu coração. E como último pedido, não lhe coroarei Rei de mim, pois já não existe mais coroa, mas entrego-lhe minha simples amizade, companheirismo e força para os tempos de dificuldade. Não serás julgado por mim, mas não posso dizer que não serás julgado por você mesmo, a todo momento. Vamos companheiro, há muitas coisas a serem feitas, não precisa limpar a poeira dos meus pés, eles já estão habituados ao tempo seco."
    Torno a repetir, Ó céus que descuido do monarca ao coroar-me rei de mim, não posso ser senhor da minha própria vida, pois se assim fosse, seria julgado a todo o momento, recebendo o título de culpado, morrendo um pouco mais a cada dia... Mas a partir de hoje, será o começo, apenas o começo do fim da nossa vida.

Ludimila do Nascimento Bassan

sábado, 20 de novembro de 2010

Talvez eu seja


Talvez eu seja mais um na multidão,
alguém sem rosto e coração,
talvez eu seja o reflexo da sombra da sua falsa paixão

talvez eu seja a silhueta da mulher que passa,
talvez eu seja todo o tempo que você gasta,
talvez eu seja a esperança em tua asa

talvez eu seja o som do passarinho
que tão cedo abandona o ninho e voa para o vasto mundo
pequeno, frágil e sozinho

talvez eu seja a mudança que você quer ver
a menina que esqueceu de se esquecer
e que hoje lhe tem como amigo, amante e perigo

Ou talvez seja somente um sonho a mais
de um alguém que já esperou demais
e que hoje busca na razão motivo de concepção
para não se entregar jamais

Talvez eu seja o seu maior segredo
Seu desejo misturado com um certo medo
e no momento em que sua voz se cala
parece que foi embora me deixando tão cedo

Talvez eu seja a sua perdição
o abismo entre o sentimento e a razão
aquele que te atira em meus braços
e em seguida te faz refém do próprio não

Mas se em algum dia fui seu talvez
é provável que agora seja a minha vez
de abrir mão do que chamam de lucidez
fechar os olhos, silenciar e sentir
o frescor, a alegria e a beleza
que carrego na minha insensatez
Ludimila do Nascimento Bassan

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Paz Bucólica

Triste é ter asas e não poder voar, por isso liberto meu pensamento do seu meio de reprodução e o dou de bom grado ao mundo. Seja ele traduzido em sentimento através dos confins da Terra e que todo ser que nela habita possa sentir o sopro da vida mediado pela brisa dos mares. Desejo profundamente que todas as pessoas durante o mesmo instante desejem da maneira mais desejosa em comunhão com a natureza um pouco de paz interior. E neste único momento, o planeta pararia, as emprenteiras tornariam-se 20 minutos mais pobres e as pessoas seriam infinitamente mais ricas. De que vale um aperto de mão selando um negócio bem sucedido se a única coisa valorizada no momento seria um abraço e uma voz dizendo que nada é mais nobre que um sorriso em sua face. Os homens buscam a paz, procuram a paz, compram a paz, vendem a paz e assumem que a conquistaram de maneira honrosa posando para a capa dos jornais empunhando seus fuzis gloriosos que roubaram a esperança que algumas crianças inocentes um dia tiveram : de encontrar a paz. FALSA PAZ, PAZ HIPÓCRITA E HOSTIL! Paz que o marketeiros vendem como real, ilusão gerada por uma caixa quadrada que ecoa um grito de desespero abafado por promessas vâs. E de presente vendem espelhos que refletem imagens desfocadas e sem vida que clamam e imploram por agulhas, algumas migalhas de pão e SANGUE para que se sintam vivas e possam ser reconhecidas por quem lance um olhar sobre os borrões contidos em sua face. Presas no espelho elas choram e sentem-se incapazes e completamente impotentes para das asas aos seus pensamentos, precisam ser reconhecidas, precisam ser notadas, precisam estar em paz. Que paz seria a verdadeira senão a interior, aquela que queima, que incendeia a vida que despenteia o cabelo da menina, que não tem receios, que não teme ao tomar uma decisão, que busca no cantar dos passarinhos o ritmo que regerá o dia, que sente a brisa do mar no rosto e agradece por estar vivo! Que abraça o mundo com a ponta dos dedos, que alcança o céu na ponta dos pés que liberta o pensamento e divide com as gerações da vida. Que busca no amor a razão para continuar em vida, paz essa que vive para que o lado oposto sorria com o seu sorriso. FAÇA PAZ, SEJA PAZ, DOE PAZ , ESTEJA EM PAZ!

Ludimila do Nascimento Bassan