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domingo, 13 de março de 2011

O homem por detrás da grade


    Certo dia acordei com uma imensa vontade de conversar com alguém, mas não poderia ser com qualquer pessoa e muito menos com quem eu estivesse habituada a gastar tempo. Estava decidida; precisava encontrar  um alguém que eu jamais tivesse obtido contato, quiçá nunca antes conhecesse ou no mínimo tivesse visto de passagem.
    Era uma manhã de domingo, e há tempos havia planejado uma visita aos meus avós. Me levantei, tomei conta de alguns afazeres domésticos e contra algumas "vontades" peguei o ônibus que me levaria até o meu destino. Eram tantos rostos diferentes, alguns tristes, cansados, outros sorridentes e esperançosos, no banco da frente estava uma criança que chorava sem cessar, sua mãe encabulada tentava de todas as maneiras silenciá-la para que fosse reduzido o tamanho do seu constrangimento em meio ao público que assistia àquela cena implorando calado para que pudesse dar o sinal e descer no próximo ponto.
    Após uma longa caminhada que se seguiu por uns dois quilômetros, ali estava eu na esquina da rua que ainda sem saber, mudaria toda uma maneira de pensar.
    A casa dos meus avós, era um lugar inconfundível por aquele bairro, para falar a verdade, tenho 18 anos e ainda não me recordo ao certo número fixado na parede, 273, 173 ou quem sabe 123? Enfim, é a famosa casa do fusquinha azul e da brasília bege. Mas recentemente, a fachada da residência dos Alves de Lima Bassan ganhou outro ponto de referência: a casa do senhor atrás da grade. Devido a algumas complicações de saúde o patriarca da família está à serviço de uma cadeira de rodas.
    Por segundos fixei meu olhar naquela imagem: um senhor de cabelos brancos, os quais razoavelmente, demonstravam sua idade, era magro e ainda não compreendo como todas as vezes que meus olhos encontram com o seu rosto, tenho a impressão de que ele está sorrindo, sorrindo com os olhos.
    Meu avô costuma gabar-se dos tempos da sua mocidade, quando saía de casa com seu violão nas costas e migrava pelas rádios da cidade em busca de uma chance para poder demonstrar o seu talento. E durante inúmeros almoços de família na casa do fusca, cresci. E foi ao som dessas duas músicas:

    
  
      Mas naquele dia o almoço foi silencioso, não existiam cordas, não havia um gravador, não existiam vozes soltas pela casa, não ouvia-se o latido do cachorro e nem o cantarolar rouco do galo. O telefone não tocava, a TV não estava sintonizada no programa "Terra da Gente", nem mesmo a corrente de vento chegou a balançar as cortinas de crochet porque essas mesmas cortinas não estavam mais no lugar de costume. Os beija-flores decidiram não mais frequentar o quintal, os bebedouros ainda estavam cheios de água doce. Meus domingos deixaram de receber os carinhosos "Bon Giorno, Come Va?". Na realidade, não existia nada mais naquela casa além de um italiano e sua neta sentados em uma mesa que costuma receber 8 pessoas que se revezavam com mais 8.
     Como de subto entregaram um violão nas mãos daquele homem que com dificuldade tentava ajeitar seus dedos que quase imploravam por um dedilhado. Na primeira tentativa o som não saiu, na segunda também não, na terceira percebi uma expressão de indignação e ligeira confusão, na quarta um questionamento, na quinta saiu alguém do quarto, na sexta saiu uma lágrima.
     Durante alguns instantes permaneci calada, na esperança de poder ouvir novamente o Abismo de Rosas sem perceber que a rosa da canção estava enfrentando o mais íngreme abismo a ser escalado.
    Cada processo pelo qual ele passa deve ser encarado como a maior conquista do mundo, pois para ele, uma figura tão ativa que era acostumada a fazer artesanato em cadeiras, realizar manobras arriscadas com seu fusca (como desligar o carro em plena avenida) e exercitar a mente com quebra-cabeças e charadas que até hoje não compreendo muito bem, cada progresso seria como aprender novamente.
    Se tem uma coisa que ele nunca se esquece de me perguntar quando eu vou lá é sobre o meu namorado. Bom, para os menos informados, eu não namoro, mas ele insiste em pedir que eu o leve para um almoço na casa dele. Quem sabe até lá a casa não esteja lotada de pessoas novamente, com bisnetos por todos os cantos, correndo pelos quartos, ocorrerá um casamento a cada ano e todos passariam as férias na casa da natureza que meus avós passaram cerca de 20 anos construindo e não poderem usufruir de tudo o que eles com tanto amor sonharam juntos.
    Hoje, tenho a impressão de que muitos problemas relacionados à família vieram à tona após as necessidades atuais desse senhor, ou talvez tenham ganhado uma maior magnitude quando todos os membros precisariam da chamada união para lidar melhor com o acontecimento. Mas, infelizmente cheguei à conclusão de que UNIÃO era justamente algo que sempre faltou. Atualmente a questão não possui como epicentro o patriarca da família e sim toda a sua marginal.
    Divagando comigo mesma e uma mesa, fui surpreendida com uma declaração que me fez desmoronar por completo e colocar à prova tudo o que eu conhecia por felicidade, gratidão e família. Todos os meus pensamentos e ética juntaram-se em alguns minutos e me fizeram compreender o real motivo de estar ali. Olhei para aquele sorriso do seu olhar e o ouvi dizer a seguinte frase: "É ruim essa situação, ficar dependendo das pessoas, dar trabalho para elas, elas tem mais o que fazer, sempre tem, eu não queria dar trabalho para ninguém entende?"
    Então era assim que ele se enxergava para seus entes queridos, como um peso, algo que se desejado poderia ser desfeito ou esquecido. Algo dispensável a qualquer momento, sinceramente, considerar-se algo, no caso um problema, já é um princípio de abandonar-se à si e entregar-se à situação, sem esperanças de sentir-se um alguém novamente.Em seguida levantei-me fui ao banheiro, joguei uma água no rosto e me sentei em frente ao espelho refletindo através do reflexo no qual me via, e assim pela primeira vez me enxerguei de fato como membro daquela família e mesmo que por muitas vezes minha voz e minhas opiniões tivessem sido caladas, era o momento de exteriorizar meus pensamentos e reconstituir, primeiramente em mim, o significado de união e círculo familiar para que depois eu pudesse levar meus desejos adiante.
    Gratidão vem seguida de amor, compaixão e misericórdia, talvez a única coisa que ainda exista seja a compaixão com resquícios de extinção. O que eu presenciei nesses últimos tempos tem sido a verdadeira diáspora dos semelhantes mais próximos que alguém teria, de uma maneira fria, egocêntrica e hipócrita como jamais vi. Até algumas semanas eu temia pelo mundo, por assaltos, por guerras e pela morte, ambos os termos estão relacionados com a perda, perder bens, perder vidas, perder a razão. Hoje não temo mais a morte, pois ela é natural, não temo assaltos, porque um dia posso recuperar o que perdi, ainda temo a guerra pela natureza humana, mas temo muito mais a perda de caráter e humanismo.
    Anoiteceu, o senhor dormiu, e eu segui o meu caminho. Tomei o ônibus na esquina e adormeci. Ao chegar em casa abri um livro e o parágrafo mencionava: " Olhou para a velha roseira ressecada e meio enterrada na neve, ao lado da castanheira despida. Estava toda coberta de rosas vermelhas". Então abri a janela do quarto, olhei para o céu estrelado, e a brisa me sussurrava aos ouvidos o segredo: Era noite de lua.

Ludimila do Nascimento Bassan