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domingo, 12 de setembro de 2010

Carta de Despedida


 Minha querida Filha,

    Estou prestes a me entregar aos meus delírios e colocar um ponto final aos meus anceios. Não direi que a morte me beijará ao final desta carta, mas imagine tudo como uma viagem, semelhante àquela que realizamos no final do verão.
    Por favor não chore, pois eu não suportaria ver uma única lágrima que saísse dos seus olhos destinada ao chão, frio e incensível. Se dessa maneira fosse, partiria com a culpa de não ser a mão que por instinto tocaria seu rosto, para que nenhuma gota permanecesse. E sem sombra de dúvidas doe meus pertences pessoais, inclusive o relógio de pulso que ganhara de presente da sua mãe antes mesmo do seu nascimento, o dinheiro depositado no banco é seu, não o entregue a ninguém, pois batalhei muito para que ele fosse aplicado no seu futuro, por isso administre-o com sabedoria. Retire das paredes, todas as fotografias que contenham a minha imagem, torne a minha existência algo questionável ou até mesmo uma lembrança fruto do seu pensamento e somente dele.
    Não quero ser eternizado, e muito menos homenageado em um cortejo fúnebre. Não mande coroas de flores, pois sabes muito bem a aversão que tenho a elas. Se acaso me acusarem, defenda-me, porém, se em algum momento o meu nome fôr bajulado demais, cale a boca de quem diz tanta asneira a meu respeito, porque como alguém que viveu em natureza humana, sua essência torna-se passível de erros.
     Faça da despedida algo agradável e não gótico como os velórios comuns. Que seja um momento de conversas e descontração, afinal, por mais lágrimas que eu tenha feito rolar, não foi só a elas que dediquei a minha vida. Faria de tudo para brotar um sorriso em sua face. Use palavras simples, porém sinceras. Não desejo discursos pré-moldados, gostaria de depoimentos e declarações a meu respeito. Não sirva café, mas sim, um delicioso martinni.
     E por último não diga adeus, brinde! Aos momentos felizes e de afeto que passamos juntos, pois são esses momentos que devem ser eternizados, não em documentos, pois com o tempo a papelada se deteriora, e sim na psiquê mais íntima do ser, carregue-me na alma e no coração, fazendo-me pulsar em suas veias, para que assim, e somente assim eu permaneça mesmo já tendo partido.


Com amor e todo o zelo contido nele,  seu amigo, Papai.


PS: Não esqueça de tirar o frango do congelador, ao contrário ficará sem jantar essa noite





Ludimila do Nascimento Bassan
(O olho que tudo vê)

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"Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las".
(Voltaire)