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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Uma última chance a nós

   

    Hoje lhe escrevo essa carta como se fosse ontem, seja lá onde você estiver sei que vai compreender o que eu digo. Muitos anos se passaram e eu estou aqui deitada na rede bordada de botões de rosa na sacada da nossa casa à beira mar. As crianças já não passam correndo pela janela como de costume, não disputam pipa, não brincam de pique esconde no nosso jardim; pra falar a verdade ver uma criança se tornou uma coisa muito rara.
    A geladeira já não anda lotada de cerveja há uns bons anos, não que eu tenha esquecido o gosto que ela tem, mas ouvir o "tizz" que ela ecoa ao ser aberta deixou de ter graça quando você foi embora. Às vezes tenho a impressão de ouvir a sua risada pelos corredores da cozinha, existem momentos que o som parece tão perto que posso sentir o seu sussurro ao pé do ouvido junto com a sua respiração acelerada por estar ao meu lado.
    Parece que longe de mim você se livrou de um peso, o peso da culpa que carregou por tanto tempo. Já não o vejo há dias e parece que está tudo bem no seu mundo que um dia deixou de ser nosso. Ao contrário do que você previa, não foi possível cumprir com a minha promessa, a de ser feliz e tocar a minha vida. Não vou negar que eu tentei, como posso dizer que não deu certo se eu não tentar?
     Mas os meus sonhos ainda permanecem, não sei com que força ou intensidade, mas eu sinto. Sou como uma arara que encontra um companheiro uma vez na vida e se por algum motivo eles se perdem um do outro ela fica solitária porque só ama uma vez. E ponto final! Não tem conversa.
    Uma vez me disseram que permitir que um amor acabe é o maior desperdício que o homem já viu. Não quero que ele acabe, porque eu sei, dentro de mim que ele é o único que vai existir, porque ele foi entrega, do começo ao fim. Foi uma pena você ter entregado o jogo e permitido que você se fosse, sendo que eu lutei para que ficasse, com todas as armas que eu tinha, com o máximo de dedicação, com o total cuidado, com zelo, com respeito.
     E hoje, depois de tanto tempo, fiel aos meus princípios, em silêncio, mais uma vez te amei.



Alice

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A dor do coitado



Pobre homem de olhar manso e desconfiado
Ao meu ver, se tornou foi um pobre coitado
Coitado é aquele que não finalizou o coito
Talvez por isso esteja tão frustrado o coitado

Coitado era um sujeito até que persistente
Cidadão honesto, trabalhador autossuficiente
Cuidava da mulher do filho e de gente
Nunca se satisfazia, jamais estava contente

Um dia, coitado foi demitido do emprego
A mulher estranhou ele ter chegado tão cedo
Quando o filho viu, correu trazendo um brinquedo
E nesse dia ele não contou, coitado virou medo

Em todas as portas que batia, seu pedido era negado
Alguns nem abriam  e passavam olhando de lado
Como ele poderia alimentar a fome do seu filho amado
Se não fosse na padaria da esquina implorar um leite fiado?

E mesmo depois de tudo, Coitado não havia desistido
Nunca tinha decepcionado, sempre foi um bom partido
As contas aumentavam, ninguém sabia de onde tinham saído
E todas as noites mulher perguntava: onde andará o meu marido?

Eu só quis alguém pra me amar
Um lar pra morar
e um caráter pra me orgulhar
O que eu recebi foi só dor
Me diz por favor
Cadê o tal do amor?

Muitos anos haviam se passado
e ninguém mais teve notícias do Coitado
O filho cresceu meio desinformado
Em meio à correria ele era respeitado

Passava pelo bairro com arma na cintura
Cumprimentava quando passava a viatura
E a sua mãe em meio à vida dura
Ficava a pensar quando isso ia ter cura

Na vida que levava o chamavam de esperto
Em meio a uma discussão era só pá e ele era correto
Parou de estudar e se desviou do rumo certo
Sua mãe via o seu fim cada vez mais perto

Tudo combinado, a arma no esquema
Amigo do carro-forte hoje tem problema
Se um ficar corre! Esse era o dilema
Hoje é mais um morto, amanhã é tele tema

Tiroteio viu! Um já ficou
Jogo de xadrez permanece quem é doutor
Dinheiro, medo, fuga, dor
São essas palavras que descrevem o terror

O filho estava com um homem bem à frente
Nada lhe deu medo, estava armado até os dentes
Pá,pá,pá Atirou matou!
Nem deu tempo de correr tomou, pá,pá,pá

A mãe chorava nada melhorava
Não tinha nada a fazer estava desconsolada
Filho morto sendo velado
E sem saber tinha matado o Cidadão Coitado

Esse é um fato vivido por muitas famílias
Falta de união forma quase que quadrilha
Não há como ignorar a sentença da vida bandida
Se houver oportunidade aproveite a primeira saída
Evite o olhar de uma mulher que perdeu o seu filho
Foi fácil demais, disseram que foi só um tiro
Dor, revolta, mágoa, saudade
Palavras que perduram por uma eternidade


Eu só quis alguém pra me amar
Um lar pra morar
e um caráter pra me orgulhar
O que eu recebi foi só dor
Me diz por favor
Cadê o tal do amor?


Ludimila do Nascimento Bassan

domingo, 20 de novembro de 2011

EXTRA EXTRA ALICE MORREU!

   


    Dei a luz a uma menina linda e doce. A idealizei tanto em meus sonhos. De olhos fechados pude enxergar um quarto decorado em amarelo com detalhes em cetim branco, um lençol claro cheirando a Confort azul dava um ar de novo ao berço que um dia serviu a mim. Ainda sonhando abria a porta sorrateiramente para espiar seu sono, zelar por sua noite e observar como Deus é lindo visto de tão perto; neste momento é quando ela boceja e resmunga algo baixinho, quase que silenciosamente é como se chamasse por mim, e precisasse somente de mim naquele momento, mal sabia ela que quem necessita dela sou eu. Parece que foi ontem que eu a acalentei em meu braços, que a vi dar o primeiro passo, a largar a fralda; o primeiro dia na escola foi a primeira preocupação que eu tive porque não poderia protegê-la e não ouviria seu resmungar. Ai como eu sofri a primeira decepção amorosa dela, eu queria estar em seu lugar porque eu saberia exatamente o que fazer para não permitir que ela sofresse e se decepcionasse e evitaria que ela amaldiçoasse os homens de sua vida.ENTÃO, como de súbito me peguei acordada e percebi que involuntariamente havia abandonado ALICE: a defensora, protetora. Essa fui eu, nasci, cresci, aprendi com pessoas, tive meus porres, minhas noitadas (confesso que essas ainda se fazem presentes), me decepcionei com os homens e como me decepcionei! Mas hoje eles não me assustam mais...
      Ó céus ALICE FOI ENCONTRADA MORTA! Essa será a manchete de segunda-feira:  Bateu com as botas na madrugada de ontem, Alice, doce ilusão de um poeta subjugado pelos seus amores. Decidido a acabar com a fonte de sua inspiração, o jovem mascarado, por sentir vergonha de suas mentiras, matou a menina com um punhal cravado no peito, Alice não teve nem como se defender de um golpe tão duro e certeiro, a ela só restou a calçada fria durante a noite e ao poeta menino, mascarado por séculos, a fuga, o medo e a incerteza de como poderia ter sido se ele a tivesse mantido viva, para ser amada pelo povo. Ela seria a sua musa idealizada, o amor que se fez somente para ele, para ele e ninguém mais. Ó céus Alice está morta e eu Ludimila do Nascimento Bassan nem sei por onde começar...


Ludimila do Nascimento Bassan